A vida pós-quarentena não será nada fácil

Quando vamos poder circular livremente? Vai ter lockdown em São Paulo? Economia ou vidas? Anticorpo 100% eficaz?
A vida pós-quarentena não será nada fácil
Quando vamos poder circular livremente? Vai ter lockdown em São Paulo? Economia ou vidas? Anticorpo 100% eficaz?

De declarações polêmicas de políticos, passando por feriado supresa e até a renovada esperança na cura, não faltaram polêmicas e preocupações sobre a crise da Covid-19 essa semana.

Porém, eu estou preocupado com outra coisa: a vida pós quarentena não será nada fácil.

Tive o prazer de explicar os motivos na nova newsletter do veículo de jornalismo, Spotniks, "É a Economia, Estúpido". Aliás, vale conferir o novo serviço de newsletters temáticas diárias do Spotniks.

O texto a seguir é uma adaptação da primeira edição produzida pela Eleven Financial, que será responsável pela newsletter às quartas.


Preste muito atenção a partir de agora, pois os dados a seguir têm uma coisa em comum.

O fluxo de brasileiros em locais de transporte público, como estações de metrô, ônibus e trem, caiu cerca de 60%, segundo o "Relatório de Mobilidade Comunitária" que compila dados de localização compartilhados pelos usuários do Google.
Já o fluxo de pedestres e usuários do transporte público em São Paulo, maior centro financeiro do País, reduziu 65% e de veículos, -50%, aponta o levantamento de mobilidade similar, da concorrente, Apple.
Na região Centro Oeste do Brasil, as vendas no varejo, medidas pela operadora de cartões de crédito, CIELO, recuaram 9,3% na comparação anual.
Os nova-iorquinos reduziram seus gastos com entretenimento em 60%, de acordo com o Opportunity Insights Economic Tracker, uma iniciativa liderada pela Universidade Harvard. Em Oklahoma, o mesmo rastreador revela que 40% das pequenas empresas não estavam operando. Na Georgia, também nos EUA, os gastos dos consumidores caíram 30%.
Uma popular plataforma online de reservas em restaurantes marcou zero mesas em Londres. Em Taiwan, a receita de restaurantes mergulhou 20%.
Na Suécia, o levantamento do Google indica queda de 40% no fluxo de pessoas em estabelecimentos de varejo e recreação, além de picos de até 80% de redução de mobilidade em locais de trabalho.
O que estes dados têm em comum?

Eles foram auferidos dias antes que os respectivos governos impusessem algum tipo de restrição relacionada à COVID-19 ou em locais onde simplesmente não houve restrições impostas pelas autoridades.

Em muitos lugares, mundo afora, as medidas impositivas foram oficializadas depois que o comportamento individual já tinha guinado para o isolamento social (e não o contrário).

O objetivo aqui não é entrar no polarizado debate sobre quando deve ser o fim das medidas de isolamento social, mas sim estimular algumas importantes reflexões sobre como será o mundo depois da reabertura das economias. A dúvida lançada é a seguinte:

Se mesmo antes das medidas governamentais as pessoas escolheram ficar em casa, seja por altruísmo ou por medo, como será o comportamento da população no "pós-reabertura" e qual impacto isso terá na economia?

Há cerca de duas semanas, a revista inglesa The Economist produziu uma matéria de capa sobre o que significa a "economia dos 90%." A reportagem ilustra quanto que a perda de um pedaço – de cerca de 10% – da atividade econômica mundial afetaria a vida das pessoas.
Para entender, é preciso reconhecer que o retorno das políticas de distanciamento, seja quarentena ou lockdown completo, não é um evento repentino, mas sim, um longo e complicado processo. Com o vírus ainda presente e a limitada capacidade de diagnóstico, seja por imposição do governo ou pelas simples escolhas das pessoas, algum grau de distanciamento social é inevitável.

Portanto, mesmo que o comércio físico possa reabrir, os shoppings possam receber seus clientes e os restaurantes, seus fregueses, o resultado é longe do que podemos chamar de normal. O número de voos, turistas, reservas em hotéis, por exemplo, ainda estão muito aquém do que já foram, até mesmo nos países que já iniciaram a reabertura, como a China.

A menos que haja uma terapia eficaz e largamente disponível - o que, no melhor cenário, deve demorar muitos meses - a vida econômica mesmo após a quarentena não será nada fácil. Serão inevitáveis profundas transformações sociais e políticas. O elevado grau de incerteza em relação à imunidade, possível segunda onda, entre outros fatores, afasta muitos que temem a doença da vida normal.

Pesquisas com consumidores americanos revelam o temor da população mesmo no período após o relaxamento das medidas de distanciamento. Um a cada três americanos afirma que sentiria-se desconfortável de ir ao shopping.

Na Europa, onde parte do comércio já foi reaberto, muitos clientes tiveram medo de entrar nas lojas. Até em regiões que não decretaram medidas oficiais, como na Suécia, os consumidores reduziram seus gastos significativamente, como mostram os dados acima.

Em uma pesquisa elaborada pelo The Democracy Fund + U.C.L.A. Nationscape Project e compilada pelo The New York Times, na última semana de abril, mais da metade dos entrevistados responderam que, mesmo após o fim das restrições, provavelmente evitariam: shows em estádios, cinema, jogos, voos comerciais, shoppings, participar de um casamento, usar transporte público e frequentar restaurantes.
Supondo que, na pós-quarentena, estes sentimentos se concretizem na economia real americana e que, para simplificar, a queda de toda atividade fosse da ordem de 10%, teríamos que voltar pelo menos para o fim da Segunda Guerra Mundial para encontrar paralelos de impacto econômico.
Falando nisso, acabamos de publicar a última revisão de projeções econômicas importantes, como o PIB em 2020, de -4.4% para -8.3%. Uma queda dessa magnitude não é muito distante do cenário da "economia dos 90%", descrito pela The Economist. Para você também ter acesso às nossas projeções para o dólar, juros e inflação aproveite o Flash Sale valido somente neste final de semana. É um desconto de 10% para você ter acesso integral às nossas análises e recomendações.
Isso tudo revela que a economia não deve voltar imediatamente ao normal quando a quarentena acabar e, a menos que um tratamento efetivo seja descoberto e disponibilizado em tempo recorde ou que seja revelado que muito mais gente do que imaginamos já está imune, os próximos meses serão bastante duros economicamente.

Se por um lado o fim da quarentena não é, por si só, necessariamente um sinal de alento para a economia, por outro lado impressiona a adaptabilidade de alguns setores.

No Brasil, a bandeira de cartões de crédito ELO registrou crescimento de 22% no e-commerce na semana de 11 a 13 de maio, em relação à média do período de 7 semanas do começo do ano, com destaque para lojas de departamento (155%) e Aplicativos de Entrega (116%).
Impressiona a velocidade com a qual muitos negócios e empreendedores individuais se adaptaram ao mundo digital, uma tendência já existente que foi dramaticamente acelerada.

Enquanto isso, há uma enorme energia sendo despendida em um "teatro de infindáveis disputas" entre os que acreditam que vale todo o sacrifício para combater a pandemia e os que acreditam que a economia não pode parar.

Como os dados acima revelam, a recuperação econômica nos próximos meses não será nada fácil mesmo após o relaxamento das medidas de distanciamento social. É muito mais interessante o debate sobre a adaptabilidade ao inevitável cenário desafiador pós-quarentena.

Há, porém, três fontes de esperança que são interconectadas e que, juntas, acelerariam a recuperação: uma surpresa positiva na área da saúde, uma redução veloz do medo e a capacidade de adaptação econômica das pessoas e empresas.

Bruno Boni
CMO da Eleven Financial

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Aviso importante: Esta publicação serve apenas como informativo para fomentar o debate de ideias. No entanto, como determinados conteúdos produzidos pela equipe da Eleven Financial podem constituir "análise", conforme definido na Instrução CVM nº 598/2018, alertamos que: retornos passados não são garantia de retorno futuro; investimentos envolvem riscos e podem ensejar perdas, inclusive da totalidade do capital investido; percentuais prospectivos refletem apenas a opinião do autor, com base em informações disponíveis na época e consideradas confiáveis. A redistribuição deste conteúdo não está autorizada.
 
 
 
 
 
 
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