[Semanal] Juros caem, digital sobe.

Confira a análise dos principais destaques do mercado nesta semana.


Aconteceu essa semana

[De 04 a 08/05]
 

Juros caem, digital sobe

Essa talvez tenha sido a semana de menor volatilidade desde o início da crise em meados de março. Isso não quer dizer que o mundo esteja menos conturbado. No Brasil, a pandemia do coronavírus bateu novos recordes de mortes, o que coloca em xeque muitos dos planos de flexibilização da quarentena.

E já estamos sentido o gosto de um processo de isolamento prolongado. Os dados econômicos divulgados essa semana indicam forte retração da atividade, o que inclusive levou o Banco Central a um corte agressivo na taxa básica de juros, a Selic. Nos Estados Unidos, vemos que o problema é de fato global: o desemprego, que chegou a ser de quase 3%, já é de quase 15%.

Na Europa, a flexibilização do isolamento está dando os seus primeiros passos. Enquanto isso não é uma realidade por aqui, as empresas têm se reinventado. E-commerce e EAD são as bolas da vez e a temporada de balanços tem mostrado isso. Vale acompanhar.
 

Os destaques da semana:

  • Política e Economia: Crise e resgate.
  • Corporativo: Captações, aquisições e a temporada de balanços.
  • Em destaque: Varejo no dia das mães.    
  • No exterior: Payroll e a volta gradual após quarentena.

Economia afunda e BC joga a boia.

Nesta semana, os dados econômicos acabaram abafando as notícias sobre a pandemia e  sobre a aguda crise política entre o Planalto e os demais Poderes da República. Os dois grandes destaque foram a produção industrial e o IPCA, índice oficial de inflação no Brasil. 

O primeiro mostrou queda de mais de 9% na comparação de março com fevereiro, resultado de fábricas fechadas por conta do isolamento social. Portanto, um resultado negativo já era esperado. O que surpreendeu foi a magnitude da queda, isso porque em março a quarentena só se tornou mais abrangente no País por volta do último terço do mês, o que significa que o impacto de um mês completo de quarentena (como abril) deve ser muito pior.

O IPCA não ficou muito longe. A queda de 0,31% nos preços representa a maior deflação em mais de 20 anos, isso em um contexto de forte disparada do dólar, que costuma ter impactos inflacionários. Essa situação se explica pelo tamanho da crise. Sem renda e sem poder sair de casa, o consumo geral da economia tem caído com muita força, o que leva as empresas a baixarem ou ao mesmo segurarem seus preços para tentar manter a clientela.

Com a gravidade da crise econômica batendo à porta, o Banco Central decidiu por novo corte na taxa Selic, reduzindo de 3,75% a.a. para 3,00%. Talvez mais importante: sinalizou que a próxima reunião do Banco deve trazer novo corte. O mercado especula mais 0,50 p.p., o que levaria a taxa básica de juros para 2,50% a.a. 

A esperança é de que a medida barateie as dívidas e amplie o crédito, desafogando as empresas que não estão faturando neste momento. Contudo, há diversos relatos de dificuldades de acesso a recursos especialmente para as empresas menores, o que sinaliza que os bancos não estão querendo correr o risco desses empréstimos.

Auxílio e contrapartidas.

Mesmo em meio a tantos dados ruins, ainda sobrou espaço para que a política fizesse o seu estrago. No centro da discórdia está o plano de auxílio federal a estados e municípios. O texto atual foi aprovado no Congresso e passará para a sanção presidencial, o que, segundo o próprio Bolsonaro, deve incluir vetos a alguns trechos.

O auxílio deve liberar cerca de R$60 bilhões para ajudar o caixa dos demais entes federativos no atual contexto em que as receitas com impostos devem cair muito. Diversos estados já passavam por dificuldades financeiras desde a crise de 2015-16, o que só deve se acentuar neste momento.

O problema é que Paulo Guedes, ministro da Economia quer contrapartidas para a liberação desses recursos: o congelamento de salários do funcionalismo estadual e municipal pelo próximo ano. A jogada busca pressionar os governos a apertarem seus cintos e não ampliarem despesas.

De outro lado, o Congresso aprovou diversas exceções a essa regra, permitindo reajustes salariais para membros e profissionais de:

  • Polícia Federal
  • Polícia Rodoviária Federal
  • Guardas municipais
  • Professores
  • Agentes socioeducativos
  • Limpeza urbana
  • Assistência social
  • Saúde
  • Segurança pública
  • Forças Armadas
Cabe agora ao presidente decidir quais dessas liberações deixará passar e quais não.

O dinheiro está volta?

Com o pânico passando, já conseguimos ver indícios de que a atividade pode estar voltando no cenário das ofertas públicas e captação de recursos.

A Natura (NTCO3), buscando reduzir a alavancagem financeira e fortalecer seu balanço, anunciou a intenção de realizar um aumento de capital de até R$2 bilhões, captando recursos de maneira privada, com participação dos controladores e de fundos de investimento.

Outra empresa que anunciou a intenção de captar recursos foi a Via Varejo (VVAR3). Após certo ânimo do mercado com as evoluções do e-commerce durante a quarentena, a Empresa afirmou estar estudando realizar uma oferta primária, mas que ainda não estão definidos os termos e prazos.

Outro indício é o IPO da Estapar, ignorando a onda de IPOs cancelados desde o início da crise do coronavírus. A Empresa está buscando captar recursos (cerca de R$300 milhões) para pagar uma concessão de 15 anos da zona azul em São Paulo, em uma oferta maioritariamente primária (ou seja, que o dinheiro vai para o caixa da Empresa e não para acionistas vendedores).

Expandindo no meio da turbulência.

Ânima (ANIM3) anunciou a aquisição da sociedade mantenedora da Faseh (Faculdade da Saúde e Ecologia Humana). Por cerca de R$110 milhões, a Empresa levou o controle de uma faculdade com nota máxima do MEC em um curso de medicina, que é um dos queridinhos do setor, e com perspectiva de captura de sinergias, consolidando ainda mais a presença do grupo em Minas Gerais.

Temporada de balanços.

Chegamos ao fim de mais uma semana movimentada, com diversas divulgações de balanços, refletindo impactos do coronavírus nas empresas e mostrando evoluções importantes no e-commerce e no EAD em meio ao cenário atual.

A YDUQS (YDUQ3) apresentou no primeiro trimestre um lucro líquido 30% inferior ao apresentado no mesmo período do ano passado. Um dado interessante de ser observado é o crescimento de 40% na base de alunos EAD, contra uma retração de 5% no ensino presencial.

A Lojas Americanas (LAME4) mostrou a força do e-commerce ao superar em 14,2% a receita do primeiro trimestre de 2019. O avanço de mais de 30% na receita proveniente da operação digital, que ganha ainda mais relevância, foi o grande diferencial para que a Companhia conseguisse melhorar seu resultado mesmo em meio a todas as complicações que estamos vivendo.

Também divulgaram resultados ao longo da semana:

  • Copasa (CSMG3)
  • Klabin (KLBN11)
  • Itaú (ITUB4)
  • Tim (TIMP3)
  • EDP Brasil (ENBR3)
  • Gerdau (GGBR4)
  • Banco Pan (BPAN4)
  • Totvs (TOTS3)
  • Intermédica (GNDI3)
  • AES Tietê (TIET11)
  • Ambev (ABEV3)
  • Banco do Brasil (BBAS3)
  • Profarma (PFRM3)
  • Neoenergia (NEOE3)
  • B2W (BTOW3)
  • Sanepar (SAPR11)
  • Banco BMG (BMGB4)
  • Natura (NTCO3)

Se você não for às compras.

Em datas comemorativas, em especial o Dia das Mães, o varejo se prepara em peso. Prateleiras cheias, vendedores a postos e uma fila enorme de clientes esperando para entrar nas lojas, prontos para gastar uma boa grana com suas queridas mamães.

Esse poderia ser o cenário do ano passado, mas 2020 nos surpreendeu com uma pandemia que trancou a maioria das pessoas dentro de casa. Mas se você não for às compras, as compras vão até você. Esse tem sido o lema dos varejistas desde o início do isolamento social e as vendas online, que ainda eram vistas como coadjuvantes para alguns setores, se tornaram as protagonistas em meio à quarentena. 

Nesta semana, ações de empresas com exposição ao e-commerce ficaram na lista das maiores altas do Ibovespa, refletindo a divulgação de resultados como B2W (BTOW3e a Lojas Americanas (LAME4) . As outras varejistas subiram na esteira da divulgação dos números do Mercado Livre, plataforma de compras online. A ação não é negociada na nossa Bolsa, mas o movimento recorde de alta observado na Bolsa de NY aumentou o otimismo do investidor em relação às vendas online. Além disso, a divulgação da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico sobre o possível crescimento do número de pedidos e faturamentos online amparou a esperança do segmento de que nem tudo estaria perdido. 

Há quem diga que o perfil dos consumidores mudou, “ir ao shopping é coisa do passado”. Também há quem diga que isso não passa de uma fase, “no Brasil shopping é entretenimento”. Se você gosta ou não de ir ao shopping para fazer suas compras do Dia das Mães, nós não sabemos, o que sabemos é que e-commerce funciona. Amplia a base de clientes, aumenta margem e, de quebra, ainda atende o público que não pode sair de casa.  

Payroll surpreende.

Na sexta-feira (08) as ações das principais Bolsas dos EUA subiram logo após a digestão dos dados do relatório de emprego (Payroll). A expectativa era de uma queda de 22 milhões de empregos, amplificando os efeitos do coronavírus. O resultado, porém,  trouxe resultados abaixo do esperado, com perda de 20,5 milhões de postos de trabalho em abril, o que traz certo alívio para o mercado, mesmo não sendo motivo para comemoração.
 
A taxa de desemprego ficou em 14,7% ante expectativa de 16%. Apesar de um resultado melhor do que o esperado, para um país que vivia em seu pleno emprego e a taxas de desemprego na casa dos 3%, o resultado apresentado assusta e mostra como a economia global está de joelhos para o vírus. 
 
O que pode ter animado mais os investidores são os números que mostram que 18,1 milhões de postos perdidos foram classificados como demissões temporárias de trabalhadores que esperam retornar seus empregos no fim da crise. Além disso, continuam as medidas para reabrir gradualmente a economia norte-americana com a Califórnia emitindo orientação parcial para abrandar as restrições na quinta-feira (07). 

Caminhando a passos lentos.

Na Espanha, o governo iniciou um plano gradativo de reabertura de parte do comércio como salões de beleza, livrarias, lojas de ferragens, floriculturas e lojas de roupas. Apesar da recomendação de manter o distanciamento social, foram vistas muitas pessoas nas ruas   em livre circulação. Os comerciantes estão mais otimistas com a nova retomada, mas, se o número de infectados e de mortes voltar a subir, possivelmente poderemos ver uma medida de recuo.
 
Atentos também aos números da Covid-19, os britânicos pensam em medidas a serem tomadas na fase de desconfinamento. Dentre elas, incluem: 

  • Escalas de horários de trabalho alternadas
  • Intensificação de normas de limpeza
  • Barreiras físicas (como telas plásticas) nos locais onde funcionários têm contato com o público 

Segundo o primeiro ministro Boris Johnson, a saída gradual do confinamento ocorrerá somente quando a taxa de contágio baixar e o sistema de saúde estiver apto a fazer testes em grande escala e contar com número significativo de leitos bem equipados.
 
Na Itália, quase cem setores de comércio, serviços e indústria voltaram a operar nesta semana. Graças ao lockdown, o País conseguiu diminuir o contágio e chegar a índices de transmissão abaixo de 1, ou seja, cada pessoa com a doença a transmite para menos de uma outra pessoa. Essa taxa é importante porque, enquanto mantida, garante que a doença vai lentamente sumindo.

Por isso, esse tem sido um dos principais indicadores utilizados pelos países para decidirem a hora de flexibilizar a quarentena. Salões de beleza, restaurantes, bares, cafeterias e sorveterias poderão receber clientes a partir de junho. As escolas, porém, só voltam ao funcionamento em setembro.

Bolsa Variação*
Nasdaq 6,00%
S&P500 3,50%
Dow Jones -0,06%
FTSE100 3,00%
DAX 0,41%
Xangai Composto 1,23%
*Variações semanais até às 18:00 de sexta-feira.

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