Onde estamos na curva da Covid-19?

Onde estamos na curva da Covid-19?
Na Sunday Porandubas do dia 15 de março, opinei sobre dois pontos que o investidor deveria ficar de olho na busca da resposta sobre quando a volatilidade relacionada à crise da Covid-19 diminuiria:

1) Nos anúncios das radicais medidas de mitigação e contenção, necessárias para o tal "achatamento da curva", poderiam inicialmente ter impacto negativo nos preços, porém o mercado logo entenderia que é exatamente o que precisava ser feito para evitar um impacto de longo prazo ainda mais profundo.

2) No comportamento da taxa de crescimento de novos casos. Escrevi: "suspeito que há uma enorme chance do mercado acalmar quando o número de novos casos diários apontar para uma possível desaceleração. Se você tem familiaridade com cálculo, é equivalente a dizer que a segunda derivada precisa zeraro que estou de olho é quando haverá uma redução sustentada do número de novos casos por dia."

Ambos os pontos estão intimamente conectados. O primeiro é o que precisava (precisa) ser feito e o segundo uma forma de mensuração, mesmo que bastante imperfeita, da eficácia das medidas.

Um dos princípios mais elementares da dinâmica do mercado financeiro é que ele antecipa tudo (ou quase tudo). São as expectativas sobre o futuro que movem as cotações e quando há um fato novo, o mercado é bastante eficaz em incorporá-lo ao preço.

Não acredito que seja uma coincidência que a Itália tenha registrado o seu pico de número de casos oficiais no dia 21 de março e o S&P 500, principal índice de ações do mercado americano, cravou um importante fundo na segunda-feira seguinte, dia 23 de março. De lá pra cá, o índice já disparou mais de 30% em menos de 30 pregões. Dentro da mesma semana, vários países europeus, como a Alemanha e a Espanha, também registraram o pico de novos casos por dia.

Não é que o mercado acionário americano dê tanta atenção assim para os desdobramentos econômicos da pandemia na Europa, mas sim a confirmação de que as medidas de distanciamento de fato funcionam. É a melhor visibilidade do "fim do começo", parafraseando Churchill, que acalmou os mercados. Afinal, como diz o Dato e eu não canso de repetir: "O mercado não tem medo de crise, ele tem medo do escuro." De forma um pouco mais técnica, o que ocorreu foi a transformação do que antes era incerteza em risco, ou seja, do que não é possível medir para um melhor mapeamento de cenários possíveis.

É claro que ainda existem múltiplas incógnitas em relação a esta pandemia. Será que quem já pegou fica de fato imune? Se sim, por quanto tempo? O vírus pode sofrer mutações e enganar o nosso sistema imunológico? As potenciais terapias irão funcionar? Em quanto tempo? Há danos de longo prazo nos pulmões dos sobreviventes? Qual é o real tamanho da população infectada? Puxando para o lado da economia, haverá crise de crédito? Desdobramentos geopolíticos? E por aí vai… Fica evidente o quanto o cenário ainda é bastante incerto.

E a pergunta que não quer calar: dromedário ou camelo?

Com o relaxamento das medidas de distanciamento, há risco de uma segunda onda, como já ocorreu no passado com outras pandemias, como a gripe espanhola?

Essa pergunta me leva à capacidade de diagnóstico, questão que alertei em outra Sunday Porandubas, ainda anterior, a do dia 01 de março: "Entre as principais preocupações está a limitada capacidade de diagnóstico, ou seja, de dar conta do volume de exames necessários… gargalo que está presente até nos países mais desenvolvidos."

O fato é que, seja por necessidade econômica ou crescente pressão psicológica, obviamente cresce no tempo o desejo de voltarmos a algo mais próximo da nossa rotina. Infelizmente, um dos principais impeditivos é justamente a questão do gargalo de capacidade de diagnóstico.

A testagem ampla é fundamental para respondermos algumas perguntas que contêm a chave para relaxarmos o isolamento.

Qual é o número real de infectados? Por incrível que pareça, um número estupidamente maior do que temos oficialmente registrado é, não só provável, como uma potencial "boa" notícia. Isso implicaria que o denominador é muito maior, portanto a taxa de mortalidade real menor. Além disso, considerando a hipótese, mais provável, porém ainda incerta, de que quem se recuperou está imune, poderíamos ter boa parte da força de trabalho fora de risco e voltando à rotina. Finalmente, uma parcela significativa da população imune significaria o início da construção de uma barreira natural entre infectados e vulneráveis.

Adicionalmente, com a ampla testagem, poderíamos isolar cadeias de transmissão ativas em vez de regiões inteiras. Desde o micro, como núcleos familiares, até o macro, como regulando a severidade das medidas para cidades específicas em vez de estados.

Infelizmente, vejo pouco avanço na ampliação da capacidade de diagnóstico. Com o gargalo, estamos naturalmente priorizando vidas e concentrando os testes para pacientes graves. Isso impede o uso mais amplo dos diagnósticos para outros fins, como o de gerar informação essencial para embasar as políticas de mitigação e contenção.

Os próximos parágrafos são mais técnicos, portanto sugiro que você pule para depois da imagem se conseguir entender que existem diferentes tipos de testes e que eles são úteis para objetivos distintos.

Os testes moleculares funcionam melhor para a detecção precoce, porém não são muito eficazes no curso mais avançado da infecção. Ao contrário, os testes imunológicos são ineficazes para o diagnóstico precoce, porém funcionam após a resposta imunológica e são essenciais para sabermos quem já foi exposto ao vírus.

Os testes moleculares, do tipo RT-PCR são os mais eficazes na detecção precoce da doença, incluindo a fase anterior ao aparecimento dos sintomas. A principal limitação desse tipo de teste é que ele demora muitas horas para ser realizado, requer equipamentos caros e, usualmente, técnicos especializados para realizar e interpretar os resultados.

O RT-PCR depende da presença de carga viral na mucosa, como o nariz, bochecha, de onde se extrai uma amostra, por isso a utilidade é limitada à cerca de duas semanas após o contágio inicial. O teste consiste em realizar uma reação química (reação em cadeia da polimerase) que amplifica o DNA/RNA presente na amostra até o ponto em que o equipamento consiga detectar a presença do material genético viral.

Já os testes imunológicos (como os de Ag, IgG/IgM) são ineficazes para o diagnóstico precoce (funcionam apenas depois do início dos sintomas, pois dependem da reação imune), porém, ao contrário dos moleculares, são excelentes na fase mais avançada do curso da infeção e até depois da melhora. É importante destacar que, se utilizado na fase ainda inicial da doença ou na falta de uma concentração suficiente de anticorpos, eles estão sujeitos a falsos negativos. Eles são fundamentais para entendermos quem teve exposição ao vírus, mesmo que a posteriori.

Este gráfico, meramente ilustrativo, elaborado pela Eco Diagnóstica, resume as considerações
acima.
Nos últimos dias, houve um certo "alarde" em relação à chegada de milhões dos chamados "testes rápidos" e a liberação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) da realização dos mesmos em farmácias. Eles ajudarão, porém explico por que esses fatos não me animam tanto.

Apesar da nota técnica da Anvisa determinar que os resultados desses testes deverão ter registro e rastreabilidade garantidos, existem dois problemas não resolvidos. Primeiro, ainda há uma enorme deficiência de coordenação central (ao contrário do exemplo da Coreia do Sul) para que possamos usar os dados a tempo de executar estratégias rápidas de contenção como, por exemplo, o isolamento de infectados em núcleos familiares ou trabalhadores de um único escritório. Segundo, o que os resultados desses exames dizem? Se você leu os parágrafos anteriores, já sabe do risco de resultados falsos negativos justamente no estágio de maior transmissibilidade do Sars-CoV-2. Além disso, um resultado positivo indica apenas que houve exposição ao vírus, sendo impossível definir, isoladamente, se existe uma infeção em progresso ou apenas passada. 

Vale aqui destacar uma importante distinção. Existem versões de "testes rápidos" tanto para os moleculares, quanto para os imunológicos. No caso da Coreia do Sul, o maior acesso à tecnologia desenvolvida domesticamente permitiu uma política de ampla testagem e rastreabilidade baseada no teste rápido molecular, RT-PCR. Já no Brasil, muito barulho foi feito em relação a testes rápidos de outro tipo, os imunológicos, que você já sabe, têm utilidade limitada para políticas mais precisas de contenção.

Toda essa discussão sobre a capacidade de diagnóstico é fundamental para respondermos a pergunta que está no título: onde estamos na curva da Covid-19? Na ausência de dados, não conseguimos responder ao certo onde estamos na curva e nem podemos avaliar com clareza a eficácia das medidas de distanciamento social. Enquanto isso perdurar, estaremos fadados a trabalhar com dados demasiadamente defasados, como o número de mortes por dia. Neste cenário, é prudente o investidor manter a cautela e focar na seletividade.

Bruno Boni
CMO da Eleven Financial

P.S.: Acredito que o meu papel aqui vai muito além de analisar apenas números e gráficos com você. Cuidar da nossa saúde coletiva — física e mental — nunca foi tão importante, portanto é minha obrigação alertar: cuide-se! Isso inclui a sua situação financeira. Aliás, amparar o investidor é o nosso dever de ofício, uma missão que exerceremos em qualquer cenário. Afinal, é natural que você esteja pensando em como defender o seu patrimônio e da sua família, considerando o tamanho do choque econômico, que vai desde as empresas até o mercado de trabalho.
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